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Era uma tarde de Outono e eu atravessava o jardim, cansada, numa tentativa de encurtar o caminho a percorrer.
Quando vi o banco ali ao lado sentei-me. Estava ocupado mas pretendia parar apenas um pouco. Na outra ponta, um homem que podia passar despercebido, de idade indefinida, era a figura representativa da solidão: ligeiramente curvado, olhos postos no canteiro desinteressante em frente, mãos no vazio, cruzadas uma na outra e cotovelos pousados nos joelhos, parecia estar a posar para um escultor de cansaços?
Quando me sentei virou os olhos para mim, fez um aceno e continuou como se não me visse. E penso que assim teria continuado se não tivesse passado por acaso uma mulher com uma criança pela mão que transportava uma maleta de violino. Talvez a criança fosse a um aula de música.
? É um violino, disse ele.
? Acho que sim, respondi.
? É uma criança com sorte, acrescentou.
? Deve ser, disse constrangida sem saber onde queria chegar.
Foi então que ele começou a falar, numa voz quase sem inflexão, num timbre grave, e distante, os olhos sempre pousados no canteiro em frente.
Contou-me como, na infância, sempre tinha desejado aprender a tocar violino, de como passava horas debaixo da janela de um senhor que tocava violino, a ouvi-lo ensaiar. O som do violino, disse ele, era como se chorasse em vez de mim. E eu só pensava que se eu pudesse tocar violino podia fazer sair uma tristeza que sentia e que não sabia bem o que era. Preferia aprender violino a andar na escola. Mas não podia ser. Nós nem vivíamos mal, embora com algumas dificuldades, dinheiro contado, como se dizia; além disso não era costume alguém ir estudar violino que, apesar de tudo, era um instrumento caro. Eu, sempre que podia, falava disso à minha mãe, de como queria ter um violino. Andava então na escola primária e devo dizer que não gostava lá muito da professora nem das intermináveis cópias que ela nos mandava fazer. Assim não trazia muitos bons resultados no caderno nem nas mensagens mandadas para casa. Um dia a minha mãe disse-me que ia ver se me arranjava um violino se eu me portasse melhor? E no dia dos meus anos ela apresentou-me a minha prenda. Eu vi que ela estava ansiosa que abrisse, e na expectativa. Peguei no embrulho e o meu coração saltou? era a forma de um violino. Abri-o, nervoso, rasgando o papel. Estava ali um violino, em plástico, azul, e cordas de arame. O arco vinha junto e quando tentei tocar fazia um miado quase sem som. A minha mãe, que devia ter feito alguns serões para juntar dinheiro para a minha prenda, perguntou-me baixinho se tinha gostado. Disse que sim abanando a cabeça. Então, com aquele objecto inútil nas mãos, que parecia estar a rir-se de mim e daquilo que eu tanto desejara, compreendi que tinham acabado de enterrar vivo aquele meu sonho. Toda a minha vida tenho enterrado sonhos vivos e penso que comecei com aquele violino que não chegou a ser, e olhava para mim cheio de troça? Quando terminou, não se moveu, continuou a olhar o jardim. Que pena, disse eu. Mas não me respondeu e só acenou ligeiramente quando me levantei e disse boa tarde. Regressei, a pensar como pode ser perigoso para um sonho e, mesmo um projecto, a mentira que, fingindo que é, pode impedir o acesso ao que deveria ser.
Angelina Carvalho

O violino “cabeça de cavalo” é um instrumento musical de cordas e muito apreciado pela etnia mongol.
Segundo registros históricos, ainda no início do século XIII, o instrumento “cabeça de cavalo” já era muito popular entre os mongóis da China e recebia o nome por ter uma cabeça de cavalo esculpida na extremidade do braço. Em função das diferenças regionais, as músicas do violino “cabeça de cavalo” variam muito do Leste para o Oeste da Mongólia Interior. O próprio instrumento varia também na forma, timbre, assim como os estilos de interpretação.
O instrumento possui duas cordas, uma composta por 40 fios de rabo de cavalo e a outra, por 60. A caixa ressonante dele tem forma de trapézio. A fricção entre o arco e as cordas permite ao matouqin emitir sons muito singulares que lhe conferem o título de "instrumento da pradaria".
Na ruazinha do meu bairro
Quase em frente a minha casa,
As lembranças criavam asas
Quando um violino tocava,
Porque de manso embalava
Sonhos que não voltam mais,
Momentos angelicais,
Que minha alma guardava.
Era um remanso nas águas,
Mas eu viajava com elas,
Como um barco solto às velas
Com medo do sol se pôr.
Me postava ao criador
Porque da graça recebida
Era a suprema guarida
Do mundo de um sonhador.
As notas eram melancólicas,
Suaves, tristes, muito calmas,
Armonizavam minha alma
Num acalanto divino.
O vento assobiava fino
Em seu cantar de improviso,
Colocando o paraíso
Dentro daquele violino.
Me parecia um chamado,
Vindo talvez ... de outro mundo,
Que transformava os segundos ...
Em tempos de eternidade.
Aquela estranha ansiedade
Era meu próprio arrebol,
E o canto do rouxinol
Me traduzia ... “Saudade”.
O músico, era um moço,
De sorriso refinado,
Qual um nobre em seu reinado ...
Com traços vivos no olhar ...
Quando se põe a tocar
Em seu trono sobre rodas,
É como quem dita a moda ...
Fazendo o mundo cantar.
Bailam as folhas no vento
As borboletas festejam
Os grilos todos solfejam
A partitura de um hino.
E o moço do violino
Mareja o olhar celeste
Quando a brisa o reveste
Num sorriso de menino
Não nascera diferente
Foi guri igual aos outros,
Montava o lombo dos potros
Na euforia de vencer ...
Rodou ... e sem mesmo saber ...
Perdeu bem mais que a carreira.
Hoje na sua cadeira
Busca força pra viver.
Talvez não sirva de exemplo
Porque a vida é mesquinha,
E a dobra da sua espinha
Foi uma esperança rompida.
Mas deus é pai e age certo
E este era o seu destino,
Nas azas deste violino
Buscar razões para a vida.
“Só deus é um espírito puro”.
Os homens são imperfeitos ...
É torto o lado direito
Na fisga de um anzol ...
Mais lindo que o Por do sol
É um sentimento profundo ...
De paz ... fluido do mundo ...
“Num violino em SI Bemol”.
Pedro Darci de Oliveira

Numa orquestra há mais violinos do que qualquer outro instrumento. A seção de cordas da orquestra toca mais que as outras, e a maioria dos apreciadores de música declaram que conseguem ouvir durante muito mais tempo o som dos instrumentos de cordas do que outro qualquer. Por que isso acontece? Na verdade, o violino é um instrumento maravilhosamente versátil. Soa bem em conjunto, combina bem com outros instrumentos e pode ser tocado de diversas formas. Portanto, não é de surpreender o fato de que os compositores, executantes e ouvintes sejam atraídos por ele.
Usando o arco
Segurar o arco apropriadamente é muito importante para uma boa execução. A mão direita controla a pressão das crinas do arco nas cordas, o que afeta o timbre do instrumento. O violinista precisa também manter pulso relaxado. Algumas técnicas usadas ao se tocar violino
Pizzicato
Os violinistas nem sempre usam o arco quando tocam - de vez em quando beliscam as cordas, o que é chamado de "pizzicato" (pronuncia-se pitzi-cato). Raramente o pizzicato se estende pela melodia inteira, mas no balé Sylvia o compositor francês Delibes escreveu um movimento inteiro em que todos os instrumentos de corda deixam de lado seus arcos para tocar a famosa Polka-Pizzicato. Quando lêem na partitura a palavra "arco", os executantes interrompem o pizzicato e voltam a usar o arco.
Tocando com surdina
Fixando-se um grampo de madeira sobre o cavalete do violino, reduz-se a força das vibrações que alcançam a caixa de ressonância. Isso funciona com uma surdina, ou abafador de som. Violinos em surdina soam muito distantes e delicados. Os compositores usam os termos italianos "con sordini" (com surdina) e "senza sordini" (sem surdina).
Sul ponticello
Expressão italiana que significa "na pontezinha". Em partitura para violino, indica que o violinista deve passar o arco próximo ao cavalete, o que origina um som de timbre agudo, de arranhudura.
Col legno
O excitante começo de "Marte, o Mensageiro da Guerra", da suíte de Holst Os Planetas, apresenta as cordas soando com um curioso efeito estalado. É o que se chama col legno - "com a madeira". O arco é seguro de lado, de tal maneira que cada nota tocada a madeira do arco bata na corda.
Vibrato
Uma das importantes técnicas de instrumentos de cordas. O dedo da mão esquerda que prende a corda oscila levemente, causando uma flutuação no tom e enriquecendo o som. O vibrato é usado sobretudo em notas longas. Alguns violinistas preferem não usá-lo quando tocam músicas muito antigas.
Corda dupla
"Corda dupla" significa tocar duas notas de uma só vez. Alguns compositores pedem acordes de três e até quatro notas, mas no violino não é possível tocar simultaneamente mais do que duas notas.
Harmônicos
São notas suaves, semelhantes às da flauta, produzidas pelo toque muito leve sobre a corda (sem pressionar a nota) e a delicada passagem do arco. São usadas com mais freqüência na música moderna.
Glissando
A palavra indica ao executante que deve escorregar o dedo sobre a corda, de uma nota a outra (o que permite que todos os sons interpostos sejam ouvidos). Os glissandos aparecem quase exclusivamente nas músicas do século XX.
O violino descende de antigos instrumentos orientais - o Nefer egípcio, o Ravanastron da India, o Rebab árabe, o R'Jenn Sien dos chineses e mesmo da antiga Lira dos gregos. Por volta do século X surgiram as primitivas violas: primeiro a Viéle de rota utilizada pelos peregrinos em Savoia; depois, progressivamente, a família das Violas que foram atravessando a Idade Média e a Renascença dando origem às Viole "da braccio" e as "da gamba", conforme eram seguradas entre os braços e ombros ou entre os joelhos respectivamente. Mais tarde esses instrumentos foram adaptados às diversas necessidades de expressão e acústica, levando os fabricantes e os compositores a pesquisarem novas formas e modalidades de instrumentos. A partir da renascença, até o Século XVIII, a genialidade dos "luthiers"(fabricantes de alaúdes - luth - e por extensão aos demais instrumentos de corda) esteve intimamente associada à genialidade dos maiores compositores de suas épocas e às descobertas técnicas dos instrumentista na criação do violino, hoje considerado O Rei dos Instrumentos. A Viola d'Amore, por exemplo, foi utilizada por J.S.Bach na Paixão Segundo S. Mateus e o próprio Bach inventou a Viola Pomposa com 5 cordas para a qual compôs uma das 6 suites hoje executada no violoncelo. Gaspar Duiffopruggar, da Bavária, é considerado o primeiro fabricante de violinos, por volta de 1500, de acordo com a atual concepção que temos do instrumento. Em seguida surgiu, na Itália a Escola de Brescia, fundada por Girolamo Virchi(1548) e Pellegrino da Montichiari(1560). Ao mesmo tempo a construção de instrumentos de arco ia se transferindo para outra cidade italiana, Cremona, com a família Amati(1545), culminando no gênio de Antonio Stradivari("Stradivarius" em latim) que viveu da última metade do Século XVII até os primeiros 40 anos do Século XVIII. Stradivarius e Guarnierius (Guarnieri del Gesú) legaram ao mundo os violinos mais perfeitos, tanto do ponto de vista acústico quanto no que se refere à beleza plástica. (formas, vernizes, decoração, etc.)

A Imaginação rodopiava alegremente
Ao som de um violino
Que chorava melodias de amor
Ao cair da noite.
A atmosfera romântica
Traduzia os sentimentos
Que esvoaçavam pelo ar
Feito folhas levadas pelo vento.
E ela sentia-se inebriante
Com a felicidade que a envolvia
Como um manto
E deixava-se acalentar docemente
Ouvindo aquele som
Que a elevava transbordante.
E o pensamento esvoaçante
A conduzia por terras distantes
Onde o amor fizera o seu ninho
E a conduzia, hesitante.
Tinha medo de acordar
E naquele instante
Não mais lembrar
Desse momento de euforia
Que amava tanto.
O som se extinguia lentamente,
Chorava a melodia
Que não queria se desfazer da noite
Que se prolongava...fria.
Débora Benvenuti

Dentre o chorar dos trêmulos violinos,
Por entre os sons dos órgãos soluçantes
Sobem nas catedrais os neblinantes
Incensos vagos, que recordam hinos…
Rolos d'incensos alvadios, finos
E transparentes, fulgidos, radiantes,
Que elevam-se aos espaços, ondulantes,
Em Quimeras e Sonhos diamantinos.
Relembrando turíbulos de prata
Incensos aromáticos desata
Teu corpo ebúrneo, de sedosos flancos.
Claros incensos imortais que exalam,
Que lânguidas e límpidas trescalam
As luas virgens dos teus seios brancos.
Cruz e Sousa

Este pedaço de mundo agora é meu
Este verde, este marrom e os lilases
Deste chão empoeirado,
Destes sons agudos do beija flor.
São dois não um, agora vejo.
O piano, o violino, a composição de alguém.
Preciso respirar tranqüilamente
Pedem por este momento meus pulmões
Sou desejo de um mundo melhor
De homens e mulheres melhores
“Homens embebedam-se, anulam-se
Meninos humilham-se, violentam-se
Mulheres desorientadas carregam ilusões
Muitas são Barbies ou Cindis.
Este mundo me é puro delírio e dor.”
Ao som do violino, choro solo.
As flores amareladas ao chão
O vôo deste beija flor
Esse momento é meu agora
Daqui a pouco sou do mundo
Que se ignora, eu não.
Maria Rita Pereira

Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir na chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
José Gomes Ferreira, in Antologia Poética

Sempre estudei violino. Tocava muitíssimo bem. Também pudera, tantos anos passados dentro de um conservatório. Oras, eu teria que ter aprendido.Até conhecê-la, achava que existia apenas o violino e suas notas.Ainda lembro do dia em que me apaixonei por suas lindas e brancas pernas tortas. Estávamos em uma livraria. Ela lendo Chopra e eu... Bem, tentando ler Murakami.Tentando parecer inteligente, perguntei a ela se conhecia Murakami.- Sim, ele faz belíssimas bolsas, respondeu.Eu sem entender nada, apenas a olhei fixamente.- Você disse, Murakami, designer da Louis Vuitton, respondeu bastante confusa.Dei uma risada nervosa, tão linda e tão fútil, pensei. Se não estivesse tão enfeitiçado por aquela garota, certamente a teria deixado falando sozinha. Porém, expliquei que se tratava de um escritor japonês e tal. E principalmente, que certamente não estávamos falando da mesma pessoa.- Japonês é tudo igual mesmo, rostos, nomes, ela disse.Quanta futilidade! Nos encaramos um pouco. Convidei-a para tomar algo. Pedimos cerveja. Ela tomou no gargalo, sem o menor embaraço. Conversamos sobre livros (dessa vez sem homônimos), cinema, relacionamentos e assuntos diversos. Convidei-a para ir até o meu apartamento. Ela aceitou e nunca mais foi embora.- Toca pra mim, ela sempre dizia.Eu passava praticamente o dia todo tocando o meu violino, enquanto ela desenhava roupas e sapatos.A sensação de ver aqueles longos fios, escuros, lisos e soltos, acompanhando a sua respiração era indescritível.Também sabia que era desejado. Ela encarava o meu violino o tempo todo. Muitas vezes desistia do lápis apenas para me ver tocar.Nos últimos tempos, a excitação inicial e o amor à primeira vista foram desaparecendo. Já não me importava se ela estava presente. Era claro também que ela já não ouvia as minhas músicas com o mesmo apreço. Nem pedia mais. Não sei bem o que, e nem quando aconteceu.Já faz um mês que ela partiu. Desde então, não fixo o meu olhar em nada. Me disseram que ela anda arredia e distante também. Ninguém entende o que nos aconteceu.Mas hoje ao quebrar o meu violino, me libertei. Espero que ao cortar o seu cabelo, ela tenha se libertado também.
Debora Daher

"... A testemunha que me relatou o sucedido ..., atrasou-se para um compromisso em minha casa, chegou três horas depois , explicando que havia ido ao velório de um tio de 81 anos de idade que morrera de amor . Parece que seu velho corpo não suportara a intensidade da felicidade tardia, e os seus músculos não deram conta do jovem que, repentinamente, deles se apossara.
O amor surgira no tempo em que ele é mais puro: a adolescência. Mas naquele tempo havia uma outra AIDS, chamada tuberculose, que se comprazia em atacar as pessoas bonitas, os artistas e os apaixonados- esses eram os grupos de risco. Pois ela, a tuberculose, invejosa da felicidade dos dois, alojou-se n os pulmões do moço, que teve que ir em busca de ar puro, no alto das montanhas... Quem ia para tais lugares despedia-se com um "adeus", um olhar de "nunca mais". Na melhor das hipóteses, muitos anos iriam se passar antes do reencontro.
Imagino o sofrimento da jovem dividida : o corpo naquela casa, a alma por longe terra!! Na vida daquela menina , que surda, perdida guerra...(Cecília Meirelles).
Valeram mais os prudentes conselhos da mãe e do pai: não trocar o certo pelo duvidoso.
Vale mais um negociante vivo do que um tuberculoso morto. E aconteceu com ela o que aconteceu com a Firmina Dazza , que de longe e às escondidas namorava o Fiorentino Ariza, na estória de Gabriel Garcia Marques - Amor nos tempos da cólera - , que foi obrigada pelo pai a casar com o doutor Urbino: não se troca um médico por um escriturário.
Casou-se e com ele ficou até que , depois de 51 anos, veio libertação...
Ela casou. Ele casou. Nunca mais se viram. Quando ela tinha 76 anos (ele tinha 79), ela ficou viúva. E ficou sabendo que ele estava vivo. A curiosidade e a saudade foram fortes demais. Foi procurá-lo. Encontraram-se. E de repente eram namorados adolescentes de novo. Resolveram casar-se. Os filhos protestaram. Eles, os filhos, não suportam a idéia de que os velhos também têm sexo. Especialmente os pais. Pais velhos devem ser fofos, devem saber contar histórias, devem tomar conta dos netos.
Mas velho apaixonado é coisa ridícula. Não combina. ...Os filhos sempre decidem contra o amor dos pais.
Mas, na nossa estória, os dois velhos deram uma banana para os filhos e foram viver juntos em Poços de Caldas. Viveram uns anos de amor maravilhosos, e ele até começou a escrever poesia e voltou a tocar o violino que ficara por mais de 50 anos sobre um guarda-roupa, porque a esposa não gostava de música de violino. Confessou ao sobrinho: "Se Deus me der dois anos de vida com esta mulher, minha vida terá valido a pena...” Bem que Deus quis. Mas o corpo não deixou. Morreu de amor, como temia o Vinícius.
Achei a estória tão bonita que transformei numa crônica a que dei um título inspirado nas Sagradas Escrituras: - "... e os velhos se apaixonarão de novo".
... Passaram-se semanas. Eram dez horas da noite. Eu estava trabalhando no meu escritório.
O telefone tocou. Voz aveludada de mulher do outro lado.
- É o professor Rubem Alves ?
-Sim, respondi secamente. Eu sempre sou seco ao telefone.
- Quero agradecer a belíssima crônica que o senhor escreveu com o título "... e os velhos se apaixonarão de novo". O senhor já deve ter adivinhado quem está falando...
- não, respondi. Por vezes eu sou meio burro. Aí ela se revelou: -Sou a viúva.
Foi o início de uma deliciosa conversa de mais de quarenta minutos, interurbano, em que ela contou detalhes que eu desconhecia. O medo que ela teve quando ele resolveu mandar consertar o violino! Ela temia que os dedos dele já estivessem duros demais...
Ah! Que metáfora fascinante para um psicanalista sensível. Sim, sim! Nem os violinos ficam velhos demais, nem os dedos ficam impotentes para produzir música ! E aí foi contando, contando, revivendo, sorrindo, chorando- tanta alegria, tanta saudade, uma eternidade num grão de areia... Ao terminar, ela fez esta observação maravilhosa: - - Pois é, professor. Na idade da gente, a gente não mexe muito com sexo. A gente vivia de TERNURA.
Aqui termina a lição do Evangelho.
Rubem Alves do livro: Sobre o tempo e a “eterna” idade.

Da seda dos teus cabelos
Teci suas cordas
O verniz escarlate
Apurei do teu sangue
Minha amada!
Nos seus acordes
Para o meu deleite e consolo
Para todo o sempre
Viverá tua alma!
Kássia Reis
Chora violino intransigente
o arco te acarinha os tendões
as cordas de minhas emoções
tocam contigo, indulgentes
Toca lá, meu arguto amigo,
solta tua voz tão afinada
vai buscar-me a doce amada
trazei-mo-la nas notas contigo
Afastai-me do peito a agonia
da saudade que me dilacera
fazei-me real esta utopia
Afastai de mim atroz quimera
que devora-me noite após dia
esta ânsia que em mim se encerra.
Jorge Linhaça

Leve como penas soltas
o violino solta as notas
no vazio da noite...
Leve,como o riso franco
o violino toca e dança
na virtude de brincar
com o lírio
que o homem pisou
e afaga a folha mutilada
curando com as notas
a sua dor...
Cezar Ubaldo
Era uma vez um grande violinista chamado Paganini. Alguns diziam que ele era muito estranho. Outros, que era sobrenatural. Ninguém queria perder a oportunidade de ver seu espetáculo.
Numa certa noite, o palco, repleto de admiradores, estava preparado para recebê-lo. A orquestra entrou e foi aplaudida, o maestro, ovacionado. Mas quando Paganini entrou, o público delirou. Paganini coloca o violino no ombro e o que se segue é indescritível.
De repente, um som estranho interrompe o devaneio da platéia. Uma das cordas do violino arrebenta. O maestro parou. A orquestra parou. Mas Paganini continuava a tirar sons deliciosos de um violino com problemas. O maestro e a orquestra, empolgados, voltam a tocar.
Quando tudo parecia bem, outra corda quebra. Todos param novamente, menos Paganini, que continua a tirar sons maravilhosos. Empolgados, todos voltam a tocar.
Mas outro som perturbador ecoa no auditório. Mais uma corda. Todos param novamente. Mas Paganini não pára. Como se nada tivesse acontecido, ele esquece as dificuldades e avança tirando sons do impossível. O maestro e a orquestra impressionados, voltam a tocar.
O público parte do silêncio para a euforia, da inércia para o delírio. Paganini atinge a glória. Seu nome corre através do tempo. Ele não é apenas um violinista genial. É o símbolo do profissional diante do impossível.

“Mas de súbito foi como se ela tivesse entrado, e essa aparição foi para ele uma dor tão dilacerante que teve de levar a mão ao peito. É que o violino subira a notas altas onde permanecia como para uma espera, uma espera que se prolongava sem que o instrumento cessasse de as sustentar, na exalação em que estava de já perceber o objeto da sua espera que se aproximava, e com um desesperado esforço para durar até sua chegada, acolhê-lo antes de expirar, manter-lhe ainda um momento com todas as suas derradeiras forças o caminho aberto para que ele pudesse passar, como se sustenta uma porta que sem isso se fecharia. E antes que Swann tivesse tempo de compreender e dizer consigo: ‘É a pequena frase da sonata de Vinteuil, não escutemos!’ todas as lembranças do tempo em que Odette estava enamorada dele e que até aquele dia conseguira manter invisíveis nas profundezass de seu ser, iludidas por aquela brusca revelação do tempo de amor que lhes parecia ter voltado, despertaram e subiram em revoada para lhe cantar apaixonadamente, sem piedade para com seu atual infortúnio, os refrões esquecidos da felicidade.”
Marcel Proust
Pode um vinho velho ser tão bom quanto um novo? Assim também com os violinos. Mas um violino novo deve ser bastante tocável de imediato: afinal, não temos a vida toda para esperar que o som melhore...
Ruggiero Ricci

Nos países de língua francesa, ele é chamado de Bois de Brésil e de Bresillet de Pernambuco.
Nos países de língua inglesa, ele é conhecido por Brazil-wood, Pernambuco-wood, Lima-wood, Nicarágua-wood, peach-wood, sapam-wood ou bukkum-wood.
Na Argentina, o chamam de pinango.
Na Índia, de sapam.
E na Espanha, seus nomes são palo Brazil ou palo de Santa Marta.
Segundo dados históricos, coube a um gênio projetista francês do século XVIII, François Tourte, a criação do arco de violino a partir da madeira considerada a ideal - o pau-brasil - conhecido na França também como "Fernambouc", uma corruptela de Pernambuco.
Os dados a respeito do uso do pau-brasil na confecção de arcos de violino são bastante incompletos. Não existem números confiáveis sobre a quantidade de madeira exportada para este propósito e quanto se gasta de madeira para se fazer um arco. Negociantes de madeira relutam em divulgar estas informações, mas estima-se que anualmente negociam-se 200 metros cúbicos, embora este número possa aumentar, pois muita madeira é gasta no processo de fabricação dos arcos. (Um arco de violino típico requer o uso de 1 kg de madeira).
O que deve ser cobrado das autoridades competentes é uma rigorosa vigilância sobre essa indústria, a fim de evitarem abusos que levem a novos desastres ecológicos. Caso contrário, cada vez que um arco de violino no mundo fizer gemer o instrumento, seremos forçados a nele reconhecer o grito lancinante de um pau-brasil caindo ao chão, indefeso!
No final da década de 70, um grande madeireiro capixaba afirmou: "Dos sete violinos Stradvarius que existem no mundo, conheci dois, um em Milão e outro em Paris, com arcos feitos de pau-brasil, numa época em que o país não havia sido descoberto. Há registros também de violinos europeus menos famosos, datados da Idade Média, com arcos fabricados em pau-brasil."